O mercado de Foodservice no Brasil

FacebookLinkedIn

Entrevista com Simone Galante, CEO na Galunion Consultoria e Gestão

“O Foodservice é um ótimo mercado para estar: cresce, faz parte de nosso dia a dia, e podemos aliar resultados com felicidade”.

“O ano está sendo ótimo para quem está trabalhando de forma inteligente, tornando os seus consumidores fiéis. O cenário não é de euforia, mas está longe de ser ruim”. A afirmação de Simone Galante, CEO da Galunion Consultoria e Gestão, sobre o setor de Foodservice no Brasil pode parecer seguir na contramão do atual cenário econômico do país, mas para o segmento, a instabilidade não interfere de modo determinante nos planos para 2015.

“Estimamos que o mercado cresça cerca de 6 a 8% neste ano. Sim, é um momento ainda positivo para se investir, pois o básico não mudou: as mulheres continuam trabalhando fora. Teremos ainda mais jovens estudando – a maior parte deles cumprindo jornada dupla entre estudo e trabalho. O shopping center continuará sendo a praça pública das cidades e a violência urbana fará as pessoas os procurarem cada vez mais. E o trânsito não vai melhorar. Logo, as pessoas terão pouco tempo, algum dinheiro no bolso e sentirão fome. Valorizarão seus centavos e desejarão gastá-los por prazer e diversão, mas também darão preferência por sabor, saúde e praticidade. Nesse sentido, as redes de alimentação continuarão a crescer e se consolidar”, afirma.

Mas mesmo com o vento a favor, o segmento ainda tem grandes desafios para encarar. Na entrevista a seguir, Simone faz um panorama de algumas das dificuldades enfrentadas no dia a dia das empresas de foodservice no Brasil. Acompanhe:

– Quais são os maiores desafios para manter o crescimento sustentado no setor de foodservice nos próximos anos?

Além de encontrar um bom ponto comercial para o seu estabelecimento, elencamos como maior desafio a relevância. Por exemplo, há mais de 500 redes de alimentação no Brasil. Destas, cerca de um quarto possui mais de 10 unidades e representa algo como 5% do nosso mercado, no qual a maioria é composta por operadores independentes.

Neste cenário, ser relevante para os clientes, colaboradores e parceiros de negócios passa a ser muito desafiador. As novas gerações têm necessidades que precisam ser ouvidas, o que traz novos estímulos para a liderança.                                             Outro ponto importantíssimo está no eixo da tecnologia: o mundo está online, os aplicativos e todas as ferramentas ajudam os negócios e os consumidores sabem cada vez mais sobre alimentação, interagem e recomendam (ou não) a sua marca.    Por fim, temos os desafios ligados à energia, água e abastecimento de alimentos. A população está envelhecendo, haverá necessidade de alimentos mais frescos e saudáveis, e os obstáculos logísticos e comerciais de ter produtos gostosos, que gerem bem-estar e sejam acessíveis ao bolso do consumidor ficará maior.

– A área de atuação do foodservice é muito ampla. Em um setor tão concorrido, quais são os diferenciais necessários para fidelizar e atrair novos clientes?

Primeiro precisamos fazer o básico bem feito. Os alimentos e bebidas devem atrair o consumidor com qualidade e serem desejados. Nos EUA, 76% dos consumidores primeiro escolhem o que querem comer para em seguida escolher onde irão comer. Em seguida, temos o diferencial do serviço, do atendimento que englobe a praticidade e conveniência com a hospitalidade.       Nós recomendamos aos nossos clientes que sejam autênticos na sua comunicação com o consumidor. Prometa e entregue. Conte sua história. Fale sobre os ingredientes, sobre a forma de preparo cuidadosa, sobre seu propósito. As pessoas querem saber cada vez mais o porquê estar ali é bom, gostam de compartilhar suas experiências. E quando se sentem conectadas com uma determinada marca, são fiéis e retornam. Pode ser porquê aquela marca torna acessível se alimentar naquele momento, trazendo um ótimo custo-benefício; pode ser porque é irresistível comer aquele produto, pode ser um local que trata as pessoas bem, e traz um ótimo impacto em uma determinada comunidade e etc.

– Como driblar a alta dos custos sem precisar aumentar o valor do produto para o consumidor final?

Revisando atentamente cada detalhe do seu negócio, buscando ser mais produtivo. Faça perguntas novas. Revise processos. Gere procedimentos mais claros, com melhores ferramentas para uma execução com excelência. Transpareça metas e alinhe seu time para planejar como atingi-las. Capacite suas pessoas. Em tempos de custos em alta, é necessário olhar cada oportunidade de melhoria. E também trabalhar com seus fornecedores de forma inteligente para lançar promoções, novos produtos e serviços que recuperem margens.

– Se comparado ao cenário de países da Europa e USA, o setor de foodservice no Brasil ainda tem grande potencial de expansão? Quais são as diferenças do mercado?

Sim, o Brasil ainda tem um potencial importante de expansão, em diferentes frentes. Primeiro, porque a urbanização e a mulher trabalhando fora de casa continuam em crescimento. Segundo, pela própria expansão da classe média e da população economicamente ativa. Os grandes direcionadores mundiais do crescimento do foodservice também são emprego e renda. Quando a renda média da população melhora, há dinheiro disponível para se gastar com alimentação fora de casa. E quando há emprego sustentado, em geral há confiança para que se gaste esta renda disponível.                                                             Estima-se que hoje, no Brasil, cerca de 34% dos gastos com alimentação seja realizado na compra de alimentos preparados fora do lar. Nos Estados Unidos este número é de 47% (dados NRA, 2014) e em muitos países da Europa aproximam-se de 50%.                                                                                            Uma outra diferença relevante entre o mercado americano e o nosso é a participação das redes no mercado de restaurantes. Enquanto no Brasil temos aproximadamente 5% de redes, nos EUA este número é de 62%, muito mais estruturados.

– Com o público cada vez mais preocupado com uma alimentação saudável, como adequar o cardápio com essa tendência?

Recomendo que primeiramente ouça o seu consumidor alvo. São crianças? São mães? Faz sentido opções mais saudáveis para um cardápio kids? Seus consumidores buscam sucos ou água de coco? Buscam saber sobre a origem de seus alimentos? Querem apenas uma opção mais saudável de acompanhamento ou prato principal? Querem produtos sem glúten? Obter insights valiosos de seus consumidores e agir no desenvolvimento de produtos em parceria com os fornecedores é, por exemplo, uma ação que gera resultados sustentados.

– Quais os desafios para qualificar a mão de obra no setor?

Primeiro selecionar bem. Depois treinar, com programas que permeiem todas as competências que são necessárias para um ótimo desempenho. Precisa melhorar o conhecimento? E por que não ter no seu treinamento questões de matemática e português na prática? Dar exemplos claros de conduta. E tudo o que for possível por meio de vídeos, games, provas e desafios. Outra questão é associar estes treinamentos com reconhecimento, seja ele financeiro ou social. Dar clareza aos processos de promoção. Mudar a atitude, que no geral, significa: ajudar as pessoas a fazerem as coisas certas, ao invés de simplesmente focar no que os colaboradores fazem de errado.

– Em tempos de crise, quais as estratégias para diminuir os custos operacionais?

As principais estratégias são: treinar e engajar sua equipe, aumentar a produtividade através de revisão de processos, procedimentos e novas tecnologias com muito foco. Tratar cada uma das linhas relevantes de seu demonstrativo de resultados com planos específicos, indicadores simples e medir resultados de maneira semanal, evitando fazer “autópsias” quando se tem somente resultados mensais para se olhar. Foco e priorização são necessários, mas geralmente funcionam somente com uma equipe bem alinhada.

– Com a crise hídrica, como manter a rotina do estabelecimento evitando o desperdício de água?

Fazendo planejamento da produção conforme a demanda, por exemplo. Introduzindo práticas de economia como torneiras automáticas e revisando alguns processos de lavagem de produtos. Use seu parceiro na área de limpeza para dar ideias importantes e relevantes. Se necessário, tenha um plano de uso de embalagens descartáveis.

– Qual o papel do foodservice em momentos de redução de custos?

Os estabelecimentos podem ajudar os consumidores a fazerem suas escolhas, deixando claro na sua comunicação as opções para um dia a dia mais saudável, prático e rápido. E também proporcionando possibilidades, onde o consumidor tem cada vez mais o controle. Temos observado que os conceitos onde o consumidor pode interagir para montar o seu prato, customizar opções, tamanho das porções e do gasto tem ganhado a preferência e crescem mais rapidamente.

– Quais são as dicas para quem quer investir no segmento?

1 – Observe e verifique a consistência do conceito que você está montando. Ele está alinhado com que os consumidores desejam? Tem uma oferta de mix de produto clara e renovável? Oferece ganhos para os consumidores-alvo ou resolvem “dores”, como por exemplo praticidade, conveniência, bem-estar ou gratificação?

2 – Depois de checar o conceito, verifique se a execução está planejada: há recursos, formas de fazer, ferramentas e indicadores? Realize as estimativas de receitas e despesas, e verifique tudo que é necessário para estar dentro da lei. No setor de alimentação mexemos com a saúde das pessoas, além de todas as demais leis fiscais e administrativas que um empreendedor enfrenta.

3 – Cuide das suas pessoas. Está claro o número de pessoas, as competências necessárias e como será o dia-a-dia desta gestão? Identifique as melhores práticas do conceito que decidiu desenvolver.

4 – Por fim, faça alianças. Trabalhe bem com seus parceiros fornecedores, ou em aliança em uma situação franqueado-franqueador. Busque associações como a ABF (Associação Brasileira de Franchising), ANR (Associação Nacional de Restaurantes) ou ABRASEL (Associação Brasileira de Restaurantes, Bares e Similares) para se informar sobre dados do setor, trocar ideias e estabelecer uma rede de contatos.

Mais informações www.galunion.com.br

– Nome completo: Simone Galante
– Cargo: CEO na Galunion Consultoria e Gestão
– Formação acadêmica: Engenheira de Alimentos, pós-graduada em Administração.
– Experiências profissionais: Membro do FCSI (Foodservice Consultants Society International), e antes de fundar a Galunion foi Diretora Executiva das Divisões de Varejo, Educação e Saúde na GRSA, Diretora de Supply Chain e Logística na GRSA, Arby’s Brasil entre outros.

Entrevista concedida à revista ABLSAN 2015
Jornalista: Mariane Binoki

Esta entrada foi publicada em Publicações e marcada com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.